Ocupação na Cisjordânia é ilegal e todos sabem disso, mas os colonos judeus não estão nem aí

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Colonos israelenses entram em confronto com agentes de Polícia da Fronteira de Israel sobre demolição de prédio no assentamento de Beit El

Há exatos dez anos começavam os preparativos para a retirara de mais de 9 mil pessoas dos assentamentos judaicos na Faixa de Gaza, que acabou se dando em setembro de 2005. Foi um dos capítulos mais dramáticos da história do Estado judeu. A desmantelação encabeçada pelo então primeiro-ministro Ariel Sharon, dividiu o país, custou uma fortuna, provocou protestos de norte a sul, e deixou feridas que ainda estão abertas. Mas no fim, o que parecia impossível, aconteceu. Israel encerrou, unilateralmente, 38 anos de ocupação em Gaza e devolveu o território aos palestinos.

Na semana passada, por determinação da Suprema Corte, Israel demoliu dois prédios de apartamentos construídos ilegalmente na Cisjordânia. Foram dias complicados. Os colonos do assentamento de Beit El, onde ficavam os prédios, entraram em confronto com soldados israelenses que estavam ali para cumprir uma ordem da Justiça. Dezenas de pessoas, entre militares e civis, ficaram feridas.

A demolição foi apenas o ato final de uma história que se arrastou durante anos nos tribunais. Uma verdadeira saga, que serve de exemplo para mostrar o quão complicado e irreal é a possibilidade de um acordo para formação de dois Estados para dois povos. A realidade na Cisjordânia está bem longe disso.

O que aconteceu em Beit El é só um fragmento do problema. Os tribunais israelenses por onde o processo se arrastou durante anos sempre souberam que 24 apartamentos foram construídos ilegalmente em terras particulares de um palestino chamado Abdul Rahman Qasim. O Estado era contra a demolição, mas a Suprema Corte entendeu que os dois prédios eram, sim, uma invasão, e mandou demoli-los.

Mas antes que as escavadeiras entrassem em ação, mais uma vez, os israelenses assistiram à já conhecida insurreição dos colonos judeus, que sempre acontece quando um assentamento ilegal é retirado à força da Cisjordânia. A violência é impressonante: colonos se atracam, literalmente, com policiais e soldados, queimam pneus, jogam pedras e óleo quente nos militares, e só saem com o uso de mais violência. O tumulto não se restringe apenas à Cisjordânia e sempre deságua na Knesset, o parlamento israelense. Durante a demolição, vários líderes de extrema-direita chegaram a dizer que era a Suprema Corte que deveria ser demolida.

Primeira reportagem

Assim que a demolição começou, 250 colonos reocuparam um assentamento, no norte da Cisjordânia, que foi desmantelado em 2005 e cujas terras estão sob controle da Autoridade Palestina. Ficaram ali só um dia e foram removidos pelo exército. Em 2006, assim que cheguei a Israel, minha primeira reportagem foi exa tamente sobre a demolição de nove casas construídas numa colônia ilegal chamada Amona. Os en­frentamentos eram impressionantes e as imagens ganharam o mundo. Dessa vez, em Beit El, não foi muito diferente, e os confrontos trouxeram de volta memórias dolorosas aos israelenses, como o que aconteceu em Amona e em Gaza.

A morosidade da Justiça e o tempo que se levou para que apenas dois prédios, ainda em construção, fossem demolidos em Beit El, ao contrário do que aconteceu em Gaza em 2005, apenas mostram que Israel jamais terá condições de retirar a maior parte dos assentamentos da Cisjordânia num eventual acordo de paz. A logística por si só torna a missão praticamente impossível. A Cisjordânia não é a Faixa de Gaza. Ariel Sharon foi capaz de desmantelar colônias remotas com 9 mil moradores. Na Cisjordânia, já são 600 mil colonos. E mesmo que um acordo venha a acontecer no futuro, e Israel tenha de retirar uma pequena parte desses assentamentos, o custo seria inacreditavelmente absurdo. Em 2005, Israel gastou US$ 3 bilhões para concluir a retirada de Gaza. Daí, dá para ter uma ideia do que seria remover centenas de milhares de pessoas.

Além do pesadelo logístico, o discurso polítco já não é mais o mesmo em Israel e mudou bastante nos últimos dez anos. A direita e a extrema-direita, que hoje conduzem o país, não estão tão dispostas a ceder nem um milímetro de terra aos palestinos e as conversas de paz há muito tempo estão paralisadas. Os prédios construídos em Beit El não tinham significado religioso, nem valor estratégico. Além disso foram construídos ilegalmente, sem as devidas autorizações, e serviriam, financeiramente, apenas ao proprietário. A situação era tão absurda que até mesmo o Estado de Israel, que muitas vezes fecha os olhos para os abusos diários que acontecem na Cisjordânia, reconheceu a ilegalidade. E mesmo assim a extrema-direita, que representa os colonos, preferiu “peitar” a decisão da Suprema Corte e apoiou a violência e os enfrentamentos que aconteceram em Beit El. A lógica dos colonos é simples: se você reage com toda força para um caso não tão insignificante, como a demolição de dois prédios vazios, estará provocando o medo em quem quiser fazer algo maior. Qualquer um que pense que um dia Israel vai se alinhar a esse tipo de pensamento está enganado. A ideia de retirar milhares de colonos da Cisjor­dânia é pura ilusão Enquanto dois “predinhos mixurucas” forem capazes de inspirar uma revolta como essa em Beit El, ninguém vai se atrever a dar pitacos por lá, e em outros assentametos. Pior, para não pôr tudo a perder, assim que os prédios foram demolidos, Benyamin Netanyahu, o primeiro-ministro cujo governo depende da coligação com os políticos extremistas que representam os colonos, sob pressão anunciou aprovação para a construção de 300 casas. Adivinhem onde? Em Beit El, é claro. Além de outras 500 casas em Jerusalém Oriental. A extrema-direita acabou fazendo um ótimo negócio: trocou dois prédios por 800 casas. E vem muito mais por aí. O próprio construtor dos dois prédios em Beit El prometeu reconstruir o que foi ao chão.

A mensagem que os colonos mandam para o resto da nação israelense é bem clara: o uso da violência funciona e quem burla a lei sai ganhando. Por enquanto, a tão sonhada paz, ou a versão de dois Estados pela paz, continua sendo fantasia. A ocupação na Cisjor­dânia veio pra ficar.

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