Primícias – Os primeiros sinais da nova vida

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Primícias – Os primeiros sinais da nova vida

Texto Básico: Levítico 23.9-14
Leitura Diária
D Lv 23.9-14 – A festa das primícias
S Dt 26.1-15 – Primícias e misericórdia
T Pv 3.1-10 – Primícias da renda para o Senhor
Q 1Co 15.20-28 – Primícias da sepultura
Q Ap 21.1-27 – Primícias de um novo mundo
S Gl 5.16-26 – Os cristãos como primícias
S Rm 16.3-16 – Primícias de nosso testemunho

Introdução

Nas festas de aniversário daqueles que são crentes em Cristo Jesus é muito comum, em dado momento da comemoração, muitas vezes antes de se cantar “Parabéns pra você”, o responsável pela festa solicitar que alguém ore agradecendo a Deus pelo aniversariante. Isto demonstra que, para o crente em Cristo Jesus, até mesmo uma simples comemoração se transforma em uma oportunidade para agradecer a Deus pelas bênçãos recebidas.
Deus requer gratidão de seu povo. No Antigo Testamento, por ordem de Deus, toda festividade não era uma celebração comum e sim ocasião para agradecer a Deus e aprender dele. Esse princípio deve marcar nossa vida.

I. A festa das primícias: sua prescrição

Em Levítico 23.9-14, Deus apresenta a prescrição para a realização da Festa das Primícias. Dois dias depois da Páscoa e um dia depois da Festa dos Pães Asmos, no décimo sexto dia de Nisã, os israelitas comemorariam o dia das primícias. Essa era a terceira festa da primavera e, como as outras duas, era uma representação da redenção. Na Páscoa, comemorava-se o livramento, na Festa dos Pães Asmos, ressaltava-se o rompimento com o passado e, na Festa das Primícias, festejava-se a nova vida.
Conforme as prescrições divinas, essa festa deveria ser celebrada na nova terra, em Canaã. No deserto, o povo não necessitava nem tinha condições de plantar. Mas, na nova terra recebida por herança, o cultivo da terra ocorreria. Por meio dessa ocupação, o povo obteria as provisões para o sustento. No entanto, não menos do que no deserto, Deus continuaria a demonstrar sua graça providencial. Por isso, no início das colheitas, o povo deveria festejar, agradecendo ao Senhor pelo cuidado providencial.
No início, a Festa das Primícias era uma comemoração simples. No sétimo mês do calendário agrícola, na primavera, quando as plantações demonstravam os primeiros sinais de amadurecimento, o agricultor israelita ceifava o primeiro feixe de cereal maduro de sua colheita e o levava ao sacerdote. O sacerdote, por sua vez, movia-o diante do Senhor, no dia depois do sábado, em sinal de gratidão e louvor pela dádiva bondosa de Deus. Essa oferta movida era acompanhada de outro holocausto de um cordeiro de um ano, sem defeito, bem como de uma oferta de manjares, constituída de 4,5 litros de flor de farinha misturados com azeite e uma oferta de libação de um litro de vinho.
Deuteronômio 26.11 descreve o que acontecia em seguida. Em termos simples, Israel festejava. O povo, os levitas e até mesmo os estrangeiros em seu meio alegravam-se “por todo bem” que Deus havia concedido. Comiam até se fartar e celebravam com o coração repleto de alegria e gratidão.

II. Sinais de esperança

A Festa das Primícias não era apenas uma celebração de ação de graças. Apesar de Israel ser, de fato, agradecido pelas safras abundantes que haviam crescido nos campos ao longo dos meses, a Festa das Primícias possuía um sentido espiritual. Israel apresentava feixes de cereais novos, uma oferta que trazia em seu cerne sinais de esperança de uma nova vida.
Esse modo de abordar a festa da colheita com o olhar voltado para o futuro exigia fé, um modo de encarar a vida que precisava não apenas dos olhos, mas também do coração para enxergar. Contrastava nitidamente com as superstições repletas de medo que caracterizavam as nações vizinhas. Em Canaã, os adoradores de Baal realizavam negociações angustiantes com seus deuses e, na tentativa de persuadi-los, cortavam-se até sangrar (como fizeram os sacerdotes de Baal no monte Carmelo) ou queimavam os filhos em sacrifícios para garantir prosperidade (como no hediondo culto a Moloque). A cada ano, o sucesso religioso era medido pelo número de sacas de cereal por alqueire e o insucesso, pelo número de mortes por família.
Israel não precisava negociar com Deus para garantir que ele cuidaria de suas necessidades diárias e anuais; ele havia prometido fazê-lo como demonstração de amor. A cada dia, os israelitas reconheciam agradecidos a provisão generosa, davam graças ao Senhor e desfrutavam a vida em comunhão com ele. E, no entanto, mesmo na terra de leite e mel, nem tudo corria bem, como ficava evidente para os de coração mais sensível. Muitos haviam se tornado escravos e se encontravam empobrecidos pelas circunstâncias da vida. O estrangeiro, o órfão e a viúva que viviam em Israel eram não apenas pobres, mas também indefesos e vulneráveis ao abuso dos inescrupulosos. Deus já havia dito que se levantaria para defendê-los (Dt 10.17-18) e esperava que seu povo fizesse o mesmo.
O Senhor, a fim de tornar visível essa prescrição de misericórdia, estabeleceu na vida comunitária de Israel várias práticas que refletiam o tema da Festa das Primícias. A lei acerca da respiga (Dt 24.19-21), prescrevia que os proprietários de terra deixassem de ceifar os cantos dos campos para manter os pobres e necessitados. Deuteronômio 26 associa as Primícias a outra expressão do mesmo espírito de misericórdia, o dízimo. Um décimo de toda a fartura com a qual Deus havia abençoado Israel devia ser entregue ao sacerdote no templo.
Quer as Primícias fossem uma forma de dízimo ou o dízimo e as respigas fossem formas da celebração das Primícias, fica evidente que os três constituíam manifestações do mesmo coração repleto de fé. O gesto de devolver uma porção a Deus visava dar forma ao desejo de Israel de ter misericórdia e justiça. Os três eram dádivas jubilosas que expressavam o vislumbre da fé, ofertas que revelavam o anseio da alma por uma nova existência, na qual o amor por Deus e por outros substituiria o egoísmo como modo de vida.
Com o passar do tempo, contudo, o povo se esqueceu da prescrição de misericórdia e as ofertas que Deus havia instruído Israel a apresentar perderam o sentido, passando a ser uma prática mecânica. O profeta Malaquias denunciou essa atitude pecaminosa, que não só afetava o culto no templo com a falta de recursos, mas também resultava em injustiça social, ou seja, órfão, viúvas e estrangeiros eram negligenciados (Ml 3.5, 8-10). Jesus condenou a atitude dos fariseus de seu tempo que eram legalistas na prática dos dízimos, mas negligenciavam a justiça, a misericórdia e a fé (Mt 23.23).
Infelizmente, o espírito de misericórdia que olhava para o futuro, o caráter representativo do dízimo, também se perdeu em diversas igrejas de hoje. Não são poucas as vezes que ouvimos acerca da contribuição por meio dos dízimos e ofertas como sendo uma forma de barganhar com Deus. Muitos pensam que contribuindo terão em troca bênçãos materiais em dobro. O “evangelho da prosperidade”, pregado em muitos púlpitos, tem desvirtuado o significado espiritual do dízimo. A motivação para a contribuição deixou de ser o reconhecimento agradecido das bênçãos recebidas do Senhor e a prática da misericórdia. Muitos contribuem no afã de poder alcançar melhores condições materiais. Esse tipo de contribuição é pecaminosa, pois é motivada pela devoção às riquezas, e não a Deus.

III. Primícias e redenção

A igreja é composta por pecadores. A Festa das Primícias era um protótipo, um modelo da redenção mais plena que viria com Cristo. O Senhor Jesus foi oferecido como Cordeiro pascal e sepultado na véspera da Festa dos Pães Asmos. A data da ressurreição de Jesus ocorreu em uma das festas judaicas e isso não foi acidental. Deus planejou tudo de modo que Jesus não apenas permanecesse na sepultura até o terceiro dia (Mt 12.39-41), mas especialmente irrompesse do túmulo na Festa das Primícias.
A festa define, portanto, o significado da ressurreição: não foi apenas o milagre da vida depois da morte, mas também o início de um novo mundo depois da morte do antigo.

1. Primícias da sepultura

Em primeiro lugar, sua ressurreição foi as primícias da sepultura física: “E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados […] Mas, de fato, Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo ele as primícias dos que dormem” (1Co 15.17-20).
Trata-se de uma notícia maravilhosa para todos nós que vivemos na fragilidade da carne humana. Há muito, a morte marca nossa vida e nosso mundo e, um dia, todos nós teremos de encarar o fim de nossa existência física. A morte causa dor e separação, mas ela não põe fim a nossa esperança, pois Cristo venceu a morte. Por isso, as Escrituras declaram: “Tragada foi a morte pela vitória” (1Co 15.54).
A ressurreição de Cristo foi as primícias da ressurreição do corpo. Moveu os primeiros feixes de uma nova vida e abriu um caminho além da morte para aqueles que morrem no Senhor. Uma colheita ainda mais abundante virá quando as sepulturas forem abertas e os mortos ressuscitados. A igreja, ao longo das eras, confessa seu anseio em uma das frases do Credo Apostólico: “Creio na ressurreição do corpo”.
Não há verdade mais confortadora do que esta para aquele que crê em Cristo Jesus. Não é à toa que os crentes em Cristo, mesmo diante da morte, conseguem louvar a Deus. A certeza da ressurreição futura, inaugurada por Cristo Jesus, produz conforto e satisfação.

2. Primícias de um novo mundo

A ressurreição de Jesus deu início a algo maior do que a vida depois da morte física. De acordo com 1Coríntios 15.45, Jesus foi “o último Adão”. Sua cruz marcou a morte do mundo do primeiro Adão, sujeito ao poder da morte, desde a queda em pecado. Constituiu, portanto, o início de um novo mundo, um novo céu e nova terra. A obra de Cristo não traz somente esperança de redenção para o seu povo, mas também para todo o cosmos. Toda criação de Deus está sujeita a morte por causa do pecado e aguarda o dia da sua redenção: “A própria criação será redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus” (Rm 8.18-21).
Este novo mundo já teve início e será plenamente manifestado na vinda de Cristo. A ressurreição de Cristo como primícias, porém, significa que o novo mundo já se iniciou.
Nas Escrituras, o novo mundo é um reino de graça que um dia se estenderá por todo o universo. A Bíblia usa vários termos para descrever a nova ordem mundial. Jesus a chamou de “reino de Deus” (Mc 1.15) e “reino dos céus” (Mt 4.17). O Evangelho de João se refere ao novo tipo de vida como a “vida eterna” (Jo 3.16). Em Apocalipse 21.1, é chamado simplesmente de “novo céu e nova terra”. A surpresa da última passagem é que o novo céu e a nova terra não são apenas futuros, mas já se manifestam aqui e agora. Por certo, precisamos ter fé para vê-los, pois, a cada dia, somos confrontados com o mal e a desintegração, tão evidentes em nosso mundo. Não obstante, o novo mundo está se abrindo.
A Igreja de Cristo na terra é uma manifestação visível deste novo mundo. No penúltimo capítulo da Bíblia, João usa três metáforas para descrevê-las: “Nova Jerusalém”, “noiva adornada para seu esposo” e “a esposa do Cordeiro”. As três metáforas bíblicas não se referem ao céu, mas à igreja. João descreve a igreja atual, uma comunidade de fé apresentada como Deus a vê pela lente do Messias: morta para os pecados por causa da cruz, santificada por causa do sepultamento e trazida de volta dos mortos para uma nova vida, por causa da ressurreição.

3. Os cristãos como primícias

Aqueles que seguem a Cristo são primícias, e não apenas pessoas que esperam ir para o céu quando morrerem. A vida deles já produz uma colheita diferente. São movidos pelos impulsos do novo mundo; são diferentes por dentro. Não são mais marcados pela raiva, malícia, violência, cobiça, concupiscência e egoísmo, ou seja, pela colheita característica da carne. Antes, sua vida revela o início de uma transformação autêntica (Gl 5.22-24).
Ainda há mais por vir. Um dia, aquilo que se iniciou com a ressurreição de Cristo e começou a produzir fruto em nós, renovará todas as coisas, em uma colheita abundante, muito além de todo entendimento (1Co 2.9-10).

4. Primícias de nosso testemunho

Havia dois lados da moeda na Festa das Primícias no Antigo Testamento. Primeiro, era uma celebração de gratidão a Deus por todas as bênçãos alcançadas na nova terra. Por outro lado, a festa das primícias, associada à prática da respiga e dos dízimos, lembrava a Israel que havia um longo caminho a percorrer, pois nem tudo ainda estava em ordem. Israel deveria desejar mais, olhar para frente, em direção a um novo dia e, por meio de suas ofertas generosas, socorrer os carentes e necessitados.
A ressurreição de Jesus Cristo, no décimo sexto dia de nisã, também ressoa nesses dois tons. Por um lado, permite que os cristãos experimentem e, portanto, percebam e celebrem, já no presente, as dádivas graciosas do Espírito Santo. Por outro lado, a ressurreição de Cristo deve fazer com que olhem adiante e percebam que há muito a ser feito e que nem tudo está em ordem.
Jesus nos falou da nova vida que seria plantada e de como amadureceria. Por meio da parábola do semeador, ele mostrou que a Palavra de Deus seria lançada no solo como uma pequena semente e, no entanto, produziria “a cem, a sessenta e a trinta por um” (Mt 13.8). A Festa das Primícias representa uma lição: cada cristão leva essa semente em sua nova vida de fé, pois a igreja do Cristo ressurreto é constituída de pessoas com uma missão. Depois de terem sido, elas próprias, transformadas pela graça, agora levam consigo a Palavra e plantam a semente do evangelho por onde passam.

Conclusão

A Festa das Primícias não era apenas mais uma festa a ser celebrada por Israel. Trata-se de uma celebração importante. Por meio dela o povo na nova terra celebrava o novo mundo, a nova vida. Este novo mundo e esta nova vida não eram sentidos de maneira plena. Mas a cada celebração Israel agradecia ao Senhor pelas dádivas alcançadas e colocava a esperança no futuro. Por meio dela o povo era encorajado a ser frutuoso, refletindo cada um diante de seu irmão o cuidado misericordioso de Deus.
A Festa das Primícias é uma celebração cujos significados repercutem até os dias de hoje, visto que tem relação direta com a ressurreição de Cristo. Lembrá-la nos faz refletir e entender sobre os propósitos redentivos de Deus que já se realizaram e que ainda estão por se completar.

Aplicação

A ressurreição de Cristo deu início à nova criação de Deus. Um novo mundo teve início, sendo, os cristãos, primícias desta nova criação. Medite sobre isso por alguns instantes. Você consegue identificar sinais desse novo mundo em sua vida e na vida de outros cristãos de seu convívio?

Autor da lição: Valdemar Alves da Silva Filho
Lições adaptadas do livro Encontrei Jesus numa festa de Israel, de John Sittema, Editora Cultura Cristã.

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